Com sagacidade, Filhos da Pátria versa sobre os primórdios da corrupção no Brasil



Ocupando a vaga deixada às terças com o fim de Os Dias Eram Assim, estreou no dia 19 de setembro a série Filhos da Pátria. De autoria de Bruno Mazzeo, o programa se passa no pós-independência do Brasil (período abordado também na novela das seis, Novo Mundo), porém, o objetivo da série é outro: no melhor estilo comédia familiar, o programa busca falar sobre as origens da corrupção no Brasil. Tanto que os personagens históricos importantes não aparecem, sendo apenas mencionados.



O foco do enredo é a família Bulhosa, especialmente seu patriarca Geraldo (Alexandre Nero), um português honesto que trabalha no Paço Imperial, tem medo de perder o emprego após a separação do Brasil de Portugal e se deixa influenciar pela malandragem do colega Pacheco (Matheus Nachtergaele), sendo promovido de forma muito suspeita. Sua esposa, Maria Teresa (Fernanda Torres) é uma alpinista social. A filha Catarina (Lara Tremouroux) tem o sonho de ser independente, enquanto o mais novo, o inconsequente Geraldinho (Johnny Massaro), não consegue resolver sua própria vida.

A família ainda conta com os escravos Lucélia (Jéssica Ellen) e Domingos (Serjão Loroza). Ela trabalha duro para conseguir comprar sua desejada alforria, enquanto ele já se sente muito cansado para isto depois de anos de servidão. Em meio a isso, os Bulhosa prosperam através dos negócios escusos em que o patriarca se envolve, como propinas e burocracias absurdas.

Desde o primeiro momento, o roteiro de Bruno Mazzeo e Alexandre Machado (parceiro frequente de Fernanda Young) chama a atenção pela sagacidade e ironia fina. Os dilemas de Geraldo ao se ver envolvido com a burocracia e o "jeitinho brasileiro" para atender aos desejos da esposa, que tem inveja da irmã ricaça Leonor (Letícia Isnard), reforçam a ideia de que a corrupção se forma no cotidiano até chegar aos ditos representantes do povo - ou seja, que não adianta ir às ruas e fazer panelaço contra a classe política se age de forma desonesta no dia-a-dia, tornando o contexto extremamente atual. O sonho de Lucélia, como contraponto, propõe a reflexão de que a honestidade proporciona a libertação.

A escolha do elenco é outro ponto positivo. Alexandre Nero, na pele do "homem honesto que cai na tentação do crime", evidencia sua versatilidade. Fernanda Torres, na pele da deslumbrada Teresa, está simplesmente fantástica. Também merecem elogios a novata Lara Tremouroux - ótima como Catarina, a feminista sonhadora; Johnny Massaro - Geraldinho, o imaturo; Matheus Nachtergaele - Pacheco, o canalha; Jéssica Ellen e Serjão Loroza (que interpretam os escravos dos Bulhosa); Marcos Caruso (padre Toledo); Saulo Laranjeira (Figueira, chefe do protagonista) e Karine Teles (Madame Dechiré, dona de um brechó que abriga nos fundos um bordel).

Lançada em agosto para os assinantes do serviço GloboPlay (no qual está disponível na íntegra, em 12 episódios), Filhos da Pátria se mostra um divertido tratado sobre a corrupção e a hipocrisia que permeiam o Brasil desde os tempos antigos. A reflexão sobre a desonestidade através dos hábitos de uma família comum, além da sensação de que a Independência não trouxe grandes resultados para o país, chegou em um momento muito propício, marcado pela imensa podridão das relações escusas entre políticos e empresários. E o tom provocativo e sagaz do roteiro colabora decisivamente para esta discussão.


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