Da ação da censura ao "quem matou": os bastidores de Cavalo de Aço, única trama de Walther Negrão exibida às 20h



Há 44 anos, a Globo exibia o último capítulo de Cavalo de Aço, única incursão do tarimbado Walther Negrão no horário das 20h. O autor foi escolhido para ocupar a faixa após sua bem-sucedida incursão às 19h, com O Primeiro Amor (1972), possibilitando assim um breve período de descanso para a "maga" do horário, Janete Clair - que vinha de sete novelas "e meia". A trama concebida pelo autor, no entanto, padeceu com a ação da Censura. O TV História resgata dez curiosidades do folhetim. Confira!



Estreia de uma quarta-feira, 24 de janeiro, Cavalo de Aço nasceu do desejo de Negrão de não repetir nada do que havia sido feito por Janete até ali. Optou-se então por uma linha "spaghetti western", exitoso subgênero dos filmes de bangue-bangue famosos nas décadas de 50 e 60, que apostava na figura do herói humanizado - no caso, Rodrigo (Tarcísio Meira), que regressava à Vila da Prata, cidadezinha do Paraná, ao descobrir, na cadeia, que o responsável pela chacina de sua família estava gozando de boa saúde e aproveitando-se das terras que usurpou de suas vítimas. Como pano de fundo, a reforma agrária, o que desagradou o governo militar.



Histórias, debatidas com familiares e com o ator Gilberto Martinho, sobre ladrões de madeira que cortavam troncos de pinheiros durante a madrugada e os transportavam em jangadas para vender às serrarias, fascinaram Negrão. Era assim que o justiceiro Rodrigo e seus aliados - a apaixonada Miranda (Glória Menezes), Brucutu (Stenio Garcia, estreando na Globo), Professor (José Lewgoy) e Sabá (Dary Reis) - lutavam contra o poderio do velho Max (Ziembinski). Os pinheiros, porém, foram substituídos por eucaliptos. Numa das gravações no rio, o barco guiado por Tarcísio adernou e ele, Glória e Milton Moraes (Carlão) precisaram lutar contra a correnteza.



Joana (Betty Faria), filha de Max, compunha o triângulo amoroso central com Rodrigo e Miranda. Através dela, uma garota mimada criada em Ipanema que fora levada de volta para o Paraná após uma passagem pela cadeia, o autor propôs uma campanha antidrogas, apoiado pelos militares. Mas a primeira menção à cocaína sofreu sanções. Joana tornou-se apenas uma moça voluntariosa, que se envolvia com os capangas de seu pai, Lucas (Edson França) e Aurélio (Cláudio Cavalcanti). Era o contraponto a Miranda, que mantinha a propriedade da família com esforço braçal, auxiliando o avô Inácio (Mário Lago), seu único familiar.



Muitos mistérios acerca da paternidade dos personagens conduziram o enredo. Dentre eles, o que envolvia o pai de Miranda, presidiário que revelou a Rodrigo, no primeiro capítulo, o autor da chacina que dizimou sua família. Também o que mobilizava Teresa (Elizangela), filha da difamada Marta (Maria Luiza Castelli), super protegida pelo irmão Santo (Carlos Vereza). A menina era herdeira de Carlão (Milton Moraes), outro desafeto de Max. E vislumbrava no pai e no namorado Aurélio, piloto de avião - que disputava com Bisteca (Suzana Gonçalves) - a possibilidade deixar Vila da Prata, rumo à "cidade grande" que conhecia só de fotonovelas.



Joana também não era filha única de Max. A chegada da governanta Catarina (Sônia Oiticica), confidente da falecida esposa do velho, acentuou o mistério: seria o bastardo Aurélio, Santo, Atílio (José Wilker), principal executor das práticas criminosas do vilão? Tudo indicava que Aurélio, filho de Catarina, era o herdeiro. O jovem havia sido demitido por ter auxiliado no socorro de Tobias (Paulo Gonçalves) numa das serrarias de Max, mas foi recolocado no posto com o dobro de salário - Tobias, com um braço amputado por conta do acidente, vivia em atrito com Benvinda (Mirian Pires, elogiadíssima), que acreditava que o marido era pai de Santo.



Nos últimos capítulos, duas revelações: Lenita (Arlete Salles), ex-amante de Carlão envolvida com entorpecentes, era a filha e a assassina de Max. A morte do vilão foi a saída encontrada por Negrão para levar sua trama até o fim, diante das investidas da Censura. Daniel Filho, supervisor artístico de Cavalo de Aço, induziu o autor a optar esse caminho: inventou que terminaria a novela no capítulo 100, esperou a resolução dos conflitos, e depois o notificou a respeito de um "esticamento". O "quem matou" mobilizou a audiência. Tanto que Carlos Vereza, preso pelo DOPS na época, foi pressionado pelos militares a revelar a identidade do criminoso.



As gravações em Santa Cruz, Rio de Janeiro, acarretaram em inúmeros transtornos para o elenco e para a produção. Faltavam banheiros e bebedouros; sobravam mosquitos e cobras. Em reunião com Daniel Filho, o elenco solicitou melhores condições. Foi providenciado um trailer, que funcionava como camarim. Os atores mais velhos do elenco, Ziembinski e Mário Lago, foram poupados de gravações externas. Em meio à reorganização do roteiro, Negrão contava com o auxílio de sua esposa, Orphila, que cuidava da continuidade, num tempo em que o autor não podia recorrer ao auxílio valioso do computador.



Ambientada no interior do Paraná, Cavalo de Aço substituiu o equino do herói por uma motocicleta, Honda 750 - Four. O fato de Rodrigo se fazer acompanhar pelo veículo de duas rodas contribuiu para a escolha do título da novela. Os calçados usados pelo protagonista, de sola de borracha, também se popularizaram, justamente sob a alcunha de "sapatos cavalo de aço". Acima, os companheiros fiéis do protagonista - José Lewgoy, consagrado no cinema, estreou na TV aqui.



Em 1988, Walther Negrão usou o principal entrecho desta novela para formular uma de suas empreitadas às 18h, Fera Radical, em exibição no Viva. O autor trocou o sexo do protagonista: Rodrigo virou Cláudia (Malu Mader) e foi de maquinista de trem a analista de sistemas. O alvo da vingança também foi alterado "drasticamente": o velho Max foi convertido numa família inteira, os Flores. Cláudia, tal e qual Rodrigo, também se envolvia com os filhos de seus algozes, Fernando (José Mayer) e Heitor (Thales Pan Chacon).



Uma pesquisa de audiência publicada em 1976 trouxe dados que colocavam Cavalo de Aço no sexto lugar dentre oito tramas exibidas até ali. Seus 180 capítulos alcançaram expressivos 68,2% de média. Liderando, Fogo Sobre Terra (1974) com 73,9% de audiência; empatadas em segundo lugar, O Semideus (1973) e Pecado Capital (1975), com 72,6%; na terceira colocação, Duas Vidas (1976), com 71,6% - todas de Janete Clair. Na sequência, Escalada (1975), de Lauro César Muniz, com 70,2%; a reprise de Selva de Pedra (1975), com 68,9%, à frente de 'Cavalo'; e a exibição original de 'Selva' (1972) e O Casarão (1976) nos dois últimos lugares, ambas com 67,5%.

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