Latininho e lobisomem mexicano: dois clássicos do mau gosto na televisão brasileira



Hoje, quando você liga a televisão no domingo, encontra programas que trazem histórias de vida: seja de perdas, ganhos ou superações. A televisão neste dia se tornou uma disputa por lágrimas: quem chora mais, seja a atração ou o espectador, ganha a batalha do Ibope.



Há 20 anos, o domingo na televisão era bem diferente de hoje em dia. Para se ter uma ideia, o SBT carregava um slogan com orgulho: "Domingo é todo alegria!". E a alegria era o carro-chefe dos programas de auditório do canal.

Mas toda essa euforia se transformava em uma guerra entre Faustão e Gugu para garantir a audiência e, nessa disputa, até mesmo o bizarro estava permitido e entrava nos lares brasileiros.

Em 1996, o Domingão do Faustão liderava o Ibope com tranquilidade, enquanto o Domingo Legal vinha crescendo na audiência. Os programas não se enfrentavam diretamente, o embate entre os dois duravam meia hora ou um pouco mais.

Até que no dia 25 de agosto daquele ano, Gugu trouxe ao palco rapazes mexicanos que tinham os rostos totalmente cobertos por pelos, os "lobisomens mexicanos".



Esse caso não tinha nada de lobisomem; trata-se de uma doença genética chamada Hipertricose. A eles foram direcionadas perguntas como era possível tomar banho, se penteavam a cara, se a família tinha a ver com a lenda do lobisomem, entre outras questões esdrúxulas.

O Domingo Legal atingiu 16 pontos, sendo que, geralmente, registrava 12 no Ibope. O circo bizarro apresentado por Gugu Liberato deu certo e acabou influenciando o Domingão do Faustão.

Alguns dias depois, no dia 8 de setembro, Rafael Pereira dos Santos, 15 anos e 87 cm, portador da síndrome de Seckel, um distúrbio que retarda o crescimento, entrou no palco vestido como o cantor Latino: um dos momentos mais constrangedores da história da televisão estava no ar.



Realizando uma performance com o cantor Latino e servindo de piada para o grupo de humor Café com Bobagem, cada tentativa de fala do Rafael e movimento era motivo de risadas para o auditório.

Se não bastasse tudo isso, o garoto Rafael, o Latininho, e Eugênio, um personagem de humor interpretado por Cesar Macedo na Escolinha do Professor Raimundo, ainda sentam no colo de Faustão para trazer ainda mais embaraço ao quadro. Mesmo assim, a pauta atingiu 30 pontos no Ibope, um número muito bom para o programa.

Apesar da boa audiência, as críticas vieram de todos os lados, pois nada daquilo apresentado por Faustão fazia parte do "Padrão Globo de Qualidade"; representava sim a queda bruta para o sensacionalismo.

Em entrevista à Folha de S. Paulo no dia 11 de setembro de 1996, Fausto se defendeu, afirmando que a concorrência o pressionava e, por isso, acabou por cair no popularesco.

O apresentador, ao ver o pequeno Rafael, pensou em não colocá-lo no ar, mas após um comum acordo com o diretor do programa na época, Carlos Manga, decidiram exibir mesmo assim. Além disso, Faustão pensou que a aparição na TV seria uma forma de ajudar Rafael.

O debate sobre o bom senso na televisão entrava em pauta na imprensa e na sociedade e Manga propôs um "código de ética" entre a Globo e o SBT, em que as emissoras se comprometiam em não exibir cenas "escatológicas e de desgraças humanas".

Guilherme Stoliar, então vice-presidente do SBT, foi totalmente contra esse acordo proposto por Manga, afirmando que a emissora tinha um código de ética próprio e que não precisava de mais um, muito menos um ditado pela Globo: "Já fui censurado pelo regime militar. Só me faltava agora ser censurado pela Globo", disse Stoliar à Folha.

Esses fatos, tanto do "lobisomem mexicano" quanto do "Latininho", foram algumas das muitas atrações que o circo televisivo apresentou nos anos 1990. Entre banheiras, mulheres seminuas, sushis eróticos e entrevistas forjadas, a televisão foi mudando e melhorando.

O passado também ajudou a moldar um novo domingo na televisão, com outras formas e jeito de entreter o público. A audiência, antes sedenta por fatos pitorescos, agora se emociona com histórias tristes e comoventes.

O domingo era todo alegria. Ou era todo vergonhoso.


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