Mesclando música e romance, Rock Story cumpriu sua missão com louvor



A estreia de Maria Helena Nascimento como autora solo na Globo foi a melhor possível. A sua primeira novela - após 20 anos de casa e de ter trabalhado como colaboradora de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, entre outros - ousou ao quebrar a sequência de comédias românticas que a faixa das sete vinha exibindo com êxito e conseguiu conquistar o público com um enredo simples, mas repleta de histórias convidativas e bons personagens. O resultado foi um folhetim gostoso de ser acompanhado, cujos deslizes (observados principalmente nos dois últimos meses) ficaram menores que os acertos.



A trama, que teve uma ótima direção de Dennis Carvalho e Maria de Médicis, apresentou a música como protagonista e usou o rock como elemento diferenciador. Afinal, o gênero tem cada vez menos espaço nas rádios e na televisão em virtude da dominação quase total do sertanejo, funk e afins.

Portanto, tê-lo como foco em um enredo foi muito benéfico e a ideia de contar a trajetória de um roqueiro decadente não poderia ter sido melhor. Gui Santiago foi um protagonista apaixonante e a escolha de Vladimir Brichta, marcando seu retorno às novelas após 12 anos, mostrou-se de uma precisão cirúrgica.

O ator deu um show vivendo um perfil nada politicamente correto e cheio de defeitos. Não foi difícil torcer por ele de imediato. Nathalia Dill, por sua vez, novamente se destacou e convenceu na pele da destemida Júlia, tendo uma clara sintonia com Vladimir. Ela ainda brilhou vivendo a gêmea Lorena e é uma pena que a irmã malvada da mocinha não tenha sido bem aproveitada pela autora.

Já Alinne Moraes mostrou a grande atriz que sempre foi interpretando a complexa Diana, formando um excelente trio central com os mocinhos. A empresária da Som Discos não poderia ter tido uma intérprete melhor. Aliás, um dos êxitos da produção foi a escalação certa para cada personagem.

Além dos exemplos já citados, Rafael Vitti fez um Léo Régis brilhante. O cantor pop arrogante e deslumbrado seria de Chay Suede, que acabou indo para Novo Mundo. A mudança foi ótima para ambos. O rival de Gui despertava risos, empatia e raiva dependendo do momento da novela. O ator, uma das gratas revelações de Malhação Sonhos, dominou o papel com facilidade e dividiu o protagonismo da trama merecidamente. Será impossível lembrar de Rock Story sem citar Léo e suas fanfarronices, incluindo sua parceria maravilhosa com Ana Beatriz Nogueira. Por sinal, a intérprete da desbocada Néia deitou e rolou no humor, fugindo do dramalhão de suas personagens anteriores, ainda que tenha vivido novamente uma mãe superprotetora. Que delícia foi vê-la em cena.

O núcleo da família Régis, inclusive, foi um dos grandes trunfos do folhetim, sustentando os dois últimos meses da trama, que enfrentou uma evidente barriga. A patricinha Yasmin (Marina Moschen) protagonizou bons momentos e formou o melhor casal da novela com Zac (Nicolas Prattes). Os atores esbanjaram química e foi bom vê-los com perfis muito melhores que os de Malhação - seu lugar no mundo, onde também viveram um par.

Eles, Léo e Néia foram responsáveis por várias cenas inspiradas. E, na reta final, a entrada de Evandro Mesquita vivendo Almir, o pai trambiqueiro do cantor pop, deixou o conjunto ainda melhor, sendo necessário também citar o crescimento da importância de Ramon, interpretado pelo talentoso Gabriel Louchard em sua estreia na TV como ator - ele e Ana Beatriz formaram uma dupla perfeita, com direito a final feliz romântico. O par formado por Léo e Stefany (Giovana Cordeiro) é outro ponto que merece elogios.

A relação de Gui com Zac foi uma das mais sensíveis do enredo, destacando a boa sintonia entre os atores. A aproximação entre pai e filho foi bem desenvolvida pela autora, assim como as vilanias de Lázaro, que sempre tentou destruir o roqueiro. João Vicente de Castro convenceu vivendo seu primeiro vilão e soube utilizar o sarcasmo nos instantes que seu personagem humilhava o comparsa Ramon.

Ainda no drama central, vale elogiar a boa condução da disputa pela música Sonha Comigo, que rendeu ótimos embates entre Gui e Léo, além de ter sido responsável indiretamente pela formação da banda 4.4. Conflitos que empolgaram e movimentaram a novela, resultando também em inspirados números musicais, parecendo shows verdadeiros. As canções fictícias eram até melhores que muitas originais que impregnam as rádios e os programas de TV hoje em dia.

Mas os núcleos paralelos foram outros êxitos da produção. O casal formado por Nicolau (Danilo Mesquita) e Luana (Joana Borges) caiu nas graças do público e os atores foram gratas revelações. O drama do câncer do rapaz, por sinal, destacou o talento dos intérpretes, incluindo ainda a maravilhoso par Gilda e Haroldo, pais do Nic. Suzy Rêgo é uma atriz fantástica e sempre cresce em cena, o que não foi diferente nesse folhetim. Ela e Paulo Betti brilharam, tanto no humor quanto na emoção. Pena que Maria Helena Nascimento não explorou a doença do integrante da 4.4 como deveria. Poderia ter rendido muito mais. Outra integrante dessa trama foi a impagável Marisa, uma das responsáveis pelos momentos mais hilários da história. Júlia Rabello esteve ótima e teve a oportunidade que merecia, depois do subaproveitamento em A Regra do Jogo.

Vale citar também o trio de bandidos atrapalhados. Alex (Caio Paduan), William (Leandro Daniel) e Romildo (Paulo Verlings) bancavam os malvados, mas sempre se davam mal, que nem os vilões dos quadrinhos. Os três cresceram merecidamente na novela e mais divertiram do que praticaram vilanias. Canalha mesmo era Alex, sendo o principal responsável pelo inferno na vida de Júlia. Mas com os amigos trapaceiros ele ficava mais leve e humano. Outra situação que funcionou plenamente foi a relação amorosa de Gordo (Herson Capri) e Eva (Alexandra Richter). Um casal que nem era esperado, mas deu muito certo. Herson viveu um de seus melhores momentos e valeu ver Alexandra longe dos perfis cômicos que a perseguiam.

E a família de Nelson (Thelmo Fernandes) e Edith (Vivianne Araújo), embora alguns conflitos tenham cansado, merece ser mencionada como êxito da trama. Os atores tiveram uma boa sintonia e o contexto ficou divertido com a chegada de Glenda (Helga Nemeczyk), ex do sambista, e sua filha vigarista Amanda (Laís Pinho), para a participação no grupo Rebola Embola. Lorena Comparatto, intérprete da Vanessa, filha do casal e assistente de Diana, foi outro bom destaque. Pena que o romance da menina com Bianca (Mariana Vaz) tenha acontecido só perto no final.

É necessário elogiar mais alguns bons nomes do elenco, como João Vitor Silva (Tom), Lara Cariello (Chiara), Rocco Pitanga (Dr. Daniel), Maicon Rodrigues (JF), Cristina Mullins (Zuleica) e Thiago Justino (Luizão). Já a dupla musical Miro (Guilherme Logullo) e Nina (Fabi Bang) não funcionou. Os perfis ficaram avulsos boa parte do tempo e quando apareciam protagonizavam situações que nada acrescentavam.

No geral, a novela fluiu bem demais. Porém, no último mês os tropeços se evidenciaram. A morte precoce de Lorena, por exemplo, aniquilou o roteiro. Sem a única vilã, o folhetim ficou sem maiores conflitos e embates derradeiros nas últimas semanas. A inserção de uma máfia italiana soou ridícula e uma tentativa rasa de movimentar o final.

A conclusão dos principais dramas também deixou a barriga cada vez maior. Afinal, o casamento de Júlia e Gui, a resolução da disputa de Sonha Comigo e a inocência de Júlia provada no tribunal aniquilaram a continuação da obra. É sempre ótimo quando o novelista conclui várias situações antes do último capítulo, evitando a péssima correria que prejudica tantos finais. Todos que conseguem isso merecem aplausos. Mas a autora exagerou. Terminou tudo cedo demais. O resultado foi a inserção de novos contextos que pareceram forçados, como Júlia se envolver com a máfia para escrever um livro sobre sua vida. Ou então Manu (Antônia Morais) jogar no lixo seu discurso contra o assédio para prejudicar o namoro de Léo. Ou ainda Miro se apaixonar subitamente por Eva, enfim.

A autora ainda conduziu duas situações de forma equivocada. A redenção de Jaílson (Enzo Romani) foi súbita e pouco crível. O marginal vivia ameaçando e agredindo Zac, quando do nada, passou a bancar o jovem sofrido que tinha uma mãe doente. Tudo para justificar sua entrada na 4.4. Entretanto, não convenceu. Ficou forçado, assim como a obsessão que Diana passou a ter por Gui pouco depois de Lorena morrer. A empresária começou a criar planos para separá-lo de Júlia e até se aliou a Lázaro, que até outro dia sempre era desprezado pela ex do roqueiro. Ficou evidente a tentativa de Maria Helena movimentar o enredo sem a gêmea má. Mas não funcionou. O contexto ficou artificial e prejudicou o trabalho da personalidade complexa de Diana. Mesmo apaixonada pelo ex, ela não se prestaria a isso.

A última semana ficou voltada para poucos acontecimentos, pois tudo já estava praticamente concluído. Serviu apenas para mostrar a redenção de Diana, que conseguiu livrar Gui da prisão, causada pela confusão no show da 4.4 que vitimou Du (Ravel Andrade), manipulando e seduzindo Lázaro. Também mostrou a, enfim, formação do casal "Ramonéia" através de uma linda declaração de Ramon a Néia, consagrando o par impagável que fizeram.

Ainda houve um sequestro morno de Júlia, mesmo a autora tendo negado que haveria o manjado recurso usado em todas as novelas recentes da Globo, incluindo até Malhação, que não causou grandes emoções em virtude da situação forçada criada pela escritora (a mocinha ter ido atrás da máfia de novo e depois de ter concluído seu tal livro foi o cúmulo da estupidez).

Já o último capítulo foi maravilhoso. A sequência do último show da 4.4 emocionou e foi bonito ver Léo Régis em paz com os meninos e Gui. A queda de Lázaro também merece menção, valorizando a humilhação de Diana, que tempos depois se casou com um quase clone de Gui.

O casamento de Gordo e Eva destacou os personagens. A ideia de colocar Luan Santana preso para Lázaro lançá-lo no mercado da música foi criativo e uma grata surpresa. Vale citar ainda o retorno de Léo ao meio artístico, para alegria de Néia, e a cena final, com todo o elenco cantando com Milton Nascimento Paula E Bebeto (Qualquer forma de amor vale a pena), encerrando a novela. Foi lindo e de uma sensibilidade ímpar.

Rock Story, deixando os baixos de lado e focando somente nos altos, foi uma novela muito gostosa de ser acompanhada e Maria Helena Nascimento merece um justo reconhecimento por esse seu primeiro trabalho solo.



A produção teve um bom retorno do público e recebeu merecidos elogios da crítica. Apesar da audiência menor que as duas antecessoras (Totalmente Demais e Haja Coração tiveram dois pontos a mais na média geral), deve ser considerada um êxito. Música de qualidade, bons personagens e uma história simples, mas realizada com competência. Uma ótima estreia da autora, que cumpriu sua missão com louvor. Foram bons sete meses de rock, bebê.

SÉRGIO SANTOS é apaixonado por televisão e está sempre de olho nos detalhes, como pode ser visto em seu blog. Contatos podem ser feitos pelo Twitter ou pelo Facebook. Ocupa este espaço às terças e quintas







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