Religiosos já são mais de 50% da programação da TV brasileira; igrejas injetam valor equivalente a uma Record



Zapear os canais da televisão brasileira e se deparar com um horário arrendado está sendo cada vez mais comum para o telespectador, mesmo que ele exija cada dia mais um conteúdo adequado e de qualidade.

Segundo levantamento exclusivo do TV História, nas 11 emissoras de maior audiência na TV aberta brasileira, contando todos os seus horários, cerca de 52% são dedicados para programas religiosos de várias crenças.

De todos os canais pesquisadas (Globo, SBT, RecordTV, Band, RedeTV!, Cultura, Gazeta, Rede Brasil, CNT, Rede 21 e Record News), a única que não tem qualquer horário religioso vendido é o SBT, que rechaça a prática por conta de Silvio Santos, o seu dono.

A Globo, líder de audiência, tem apenas uma hora: das 6h às 7h, aos domingos, onde é exibida a Santa Missa, apresentada pelo Padre Marcelo Rossi, o mais popular padre católico do Brasil.

Na Record, são 18 horas e 45 minutos semanais vendidas para a Igreja Universal do Reino de Deus. De segunda a sexta, a IURD fica das 1h15 às 6h. Aos sábados, a faixa é das 1h15 às 7h. Aos domingos, são 7 horas e 45 minutos de programação religiosa: de 1h15 às 9h.



Apenas na Record, segundo notícias publicadas pela imprensa e mostradas no balanço financeiro da emissora, em 2016 foram R$ 500 milhões para que estas faixas foram cedidas foram pagos pela Igreja.

Na Band, são 22 horas semanais vendidas para igrejas. Atualmente, uma hora diária é de R.R Soares e o seu Show da Fé, que paga o maior valor por hora na TV brasileira - são R$ 10 milhões por mês. Outras três horas, de domingo a sexta, são compradas pela Igreja Universal do Reino de Deus. Aos sábados, complementa esta faixa o programa Vitória em Cristo, de Silas Malafaia, das 12h às 13h.

Das cinco principais redes, a que mais vende para igrejas é a RedeTV!. São 75 horas semanais, o que configura 51% de toda a sua programação. Por dia, de segunda a sexta, são 12 horas. Aos sábados, são sete horas e meia, bem como no domingo.

Questionado sobre isto, Marcelo de Carvalho, vice-presidente da RedeTV!, já disse que se não vender tantas faixas, a emissora quebra e o seu negócio vai à falência. A esperança é a Simba, joint-venture formada entre RecordTV, SBT e RedeTV! para cobrar pelo sinal digital delas na TV paga.

Na Cultura, uma hora é dedicada para religião, como na Globo - aos domingos, das 8h às 9h, com a transmissão da Missa de Aparecida.

Na Gazeta, são seis horas e 30 minutos semanais: quatro horas de segunda a sábado, e mais duas horas e 30 minutos aos domingos. Todas elas são vendidas para a Igreja Universal do Reino de Deus.

Igrejas fazem farra em emissoras UHF

Nas emissoras UHF, de menor alcance, acontece uma verdadeira farra do boi. CNT, Rede 21 e Ideal TV vendem 22 horas de sua programação diariamente, tendo 95% de suas grades locadas para igrejas.

O cliente das três é o mesmo: a Igreja Universal do Reino de Deus. O TV História noticiou recentemente que cada uma dessas emissoras recebe R$ 10 milhões/mês para praticamente arrendarem 100% dos horários.

A exceção neste meio é a Rede Brasil. Semanalmente, o canal de Marcos Tolentino arrenda apenas duas horas e 45 minutos para igrejas. Essas faixas são normalmente compradas pela Igreja Mundial do Poder de Deus, de Valdemiro Santiago, concorrente direto da Universal.



A Record News, emissora de notícias da Record, também têm horários locados para igrejas - no caso, novamente a Universal. Por semana, são seis horas e 30 minutos para congressos empresariais promovidos pela IURD.

Investimento de uma Record

No total, também segundo informações publicadas pela imprensa e pelo TV História, as igrejas movimentam mais de R$ 1 bilhão apenas em horários comprados.

O valor é o mesmo que o faturamento líquido da RecordTV, a segunda maior emissora do País, teve no ano de 2016. O valor é superior ao do SBT, a terceira maior, que fechou 2016 com R$ 900 milhões.

A RedeTV!, por exemplo, tem 20% de seu faturamento total vindo de vendas de horário para igrejas. No ano passado, ela aumentou o número de faixas vendidas em uma hora e 45 minutos. Em 2016, teriam sido R$ 186 milhões faturados apenas com isto.

A medida preocupa, já que a TV brasileira ficou totalmente dependente do dinheiro de fiéis. Para tentar evitar que tantos horários sejam locados para doutrinação, o Ministério Público Federal entrou com uma ação judicial em 2014, pedindo a anulação das concessões de CNT e Rede 21, alegando arrendamento ilegal de programação.

O processo, porém, foi arquivado e acabou não dando em nada. Na lei, a cessão de horários é proibida, mas a legislação é questionada anualmente, já que ela é antiga e antes do tempo da popularização da TV, nos anos 1970.

Além disso, estas emissoras argumentam que conteúdo religioso também pode ser interpretado como uma finalidade cultural da programação das emissoras, prevista na Constituição. Dessa forma, programas religiosos não poderiam entrar no limite de 25% do espaço da grade.




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