A Força do Querer acerta com bons temas, ótima direção e protagonistas cativantes



No último dia 3 de abril, a veterana Glória Perez retornou ao horário das 21h. A Força do Querer, sua nova novela, traz consigo a responsabilidade de trazer o espectador de volta à faixa, nos últimos anos combalida por sucessivos fracassos (como Em Família, Babilônia e sua antecessora A Lei do Amor). Desta vez com a direção de Rogério Gomes (Papinha), a autora se apoia em um trio de protagonistas de personalidades fortes e várias nuances, além de também apostar em elementos conhecidos de sua carreira, como o merchandising social. A julgar pela primeira semana, o resultado tem sido bastante agradável.

A estreia se deu sem a preocupação de ser impactante ou arrebatadora - pelo contrário, nem parecia um primeiro capítulo. A apresentação dos personagens foi feita de forma natural e a autora acertou em programar a primeira fase do enredo apenas para a primeira metade do episódio.

Quatro histórias tiveram foco no capítulo inicial: o vício de Silvana (Lilia Cabral) em jogos de azar; o drama de Ivana (Carol Duarte), que é superprotegida pela mãe Joyce (Maria Fernanda Cândido), mas não se sente uma mulher; a história de Bibi (Juliana Paes), que rompe com Caio (Rodrigo Lombardi) por não se sentir amada e se envolve com Rubinho (Emílio Dantas); e a viagem de Eugênio (Dan Stulbach) e Ruy (João Gabriel Cardoso/Fiuk). O garoto se perde em uma tempestade ao lado de outro menino, Zeca (Xande Valois/Marco Pigossi) e ambos são encontrados por um índio. Os destinos deles se cruzam novamente após 15 anos, desta vez, apaixonados pela sedutora Ritinha (Isis Valverde), uma garota que se sente uma sereia e gosta do encanto que exerce sobre os homens.



Ao longo da semana, as histórias foram ganhando corpo, em especial o envolvimento de Zeca e Ritinha, que deseja ir para o Rio de Janeiro. Ruy, hipnotizado pela sensual garota, chega ao ponto de mandar o rival entregar uma carga na capital carioca para afastá-lo da paraense e o faz sem o menor remorso de trair a noiva Cibele (Bruna Linzmeyer). Isto o torna ainda mais machista que Tiago (personagem de Humberto Carrão em A Lei do Amor).

Eugênio se vê infeliz no casamento com Joyce, acreditando que ela não apoia seu sonho de abrir um escritório de advocacia, e tem uma ótima relação com Ivana, que se vê ainda mais distante da mãe por causa de seu jeito de ser. Ao mesmo tempo, Silvana, esposa de Eurico (Humberto Martins), continua viciada em jogos, sem que o marido desconfie.

Por sua vez, Bibi se vê mais e mais em dificuldades financeiras, chegando ao ponto de receber uma ordem de despejo, mas finge que tudo vai ficar bem em nome do seu amor por Rubinho, que não consegue administrar o dinheiro que ganha.

Na quinta-feira, mais duas personagens decisivas chegaram: Irene (Débora Falabella), nova secretária de Eugênio, que será responsável pela destruição de seu casamento com Joyce; e a policial Jeiza (Paolla Oliveira), a terceira protagonista, que não havia surgido até então.

A primeira aparição de Jeiza se deu em uma blitz em que ela aborda Zeca. O encontro é tenso, pois ela é uma policial durona e segura de si e isso intimida o caminhoneiro, cuja visão machista não aceita que uma mulher levante a voz para ele. Pouco depois, os dois se reencontram na casa da tia dele, Nazaré (Luci Pereira) e os olhares deles revelam um misto de constrangimento e atração mútua. Zeca fica impactado e hipnotizado ao perceber que aquela policial que teve a "audácia de desafiá-lo" é uma mulher muito sensual e linda. A relação de gato e rato entre os dois evoluirá para uma amizade e posteriormente uma grande paixão.

A primeira semana da novela mostrou uma boa condução do seu enredo e um bom ritmo, em parte graças à direção de Papinha. O diretor soube dar vida ao ótimo texto da autora de uma forma em que tudo fluísse naturalmente, o que caracteriza um avanço em relação às últimas tramas de Glória (dirigidas por Marcos Schechtman).

O elenco também mostra maturidade, a começar pelo acertado trio protagonista. Isis Valverde, de volta às telinhas após dois anos, está plena e segura como Ritinha: a sedução natural da personagem caiu como uma luva para a atriz, que ainda repete a química com Marco Pigossi vista em Boogie Oogie (2014-2015).

Juliana Paes, após a elegante Carolina Castilho em Totalmente Demais, brilha e emociona vivendo a popular e sofrida Bibi. E Paolla Oliveira, mesmo entrando apenas no final da semana, está igualmente excelente na pele de Jeiza, uma mulher de muita personalidade, sem deixar de ser feminina. Paolla também mostrou ter uma visível química com Pigossi na primeira troca de olhares de seus personagens.



Paralelamente ao eixo principal, Carol Duarte é outro grande acerto. A estreante emociona com as cenas da transgênero Ivana, ao lado de Dan Stulbach e Maria Fernanda Cândido (dois excelentes atores que estão de volta às novelas, nas quais são figuras raras) e tem tudo para fazer deste um dos melhores entrechos.

Outras boas presenças são Lília Cabral (excelente como Silvana), Gisele Fróes (como a mãe de Jeiza, Cândida - uma mulher alegre e popular após várias autoritárias controladoras), Elizângela (Aurora, mãe de Bibi), Tonico Pereira (Abel, pai de Zeca), Zezé Polessa (Edinalva, mãe de Ritinha) e Emílio Dantas (nome talentoso da geração jovem, como o malandro Rubinho). Deve-se destacar ainda o elenco mais enxuto, uma mudança em relação aos grupos inchados das últimas tramas da autora, que deixavam muitos atores avulsos.

Algumas observações devem ser feitas: a família Garcia, apesar de seus bons entrechos, remete muito ao clã Cadore, de Caminho das Índias. As referências mais claras são a presença de Irene (que lembra Ivone, vilã vivida por Letícia Sabatella) e o tom de Eurico, que lembra muito Ramiro - Humberto Martins não tem culpa, apenas faz (e muito bem) o que é pedido.

Marco Pigossi, jovem talentoso, novamente vive um mocinho desagradável, o que tem sido constante em sua galeria de personagens (ao lado de Bento, de Sangue Bom e Dante, de A Regra do Jogo). Apesar do bom desempenho, ele precisa buscar a versatilidade de viver tipos diferentes.

Há ainda a reciclagem de vários instrumentais de outras novelas dirigidas por Papinha, como Império e Além do Tempo. Isto se deve ao trabalho do produtor musical Rodolpho Rebuzzi, que assina a trilha sonora ao lado de Mu Carvalho (conhecido pelas trilhas de Chocolate Com Pimenta e Eta Mundo Bom). São temas bonitos, mas fica impossível não fazer a associação com outras tramas.

A abertura, normalmente um ponto forte das novelas de Glória, desta vez decepcionou. Os grafismos sobrepostos às imagens trouxeram um resultado nada harmônico e a disposição dos créditos ficou estranha: os nomes de Lilia Cabral e Maria Fernanda Cândido aparecem antes das três atrizes protagonistas. O acerto foi sua música-tema, a canção O Quereres, de Caetano Veloso, regravada especialmente para a ocasião.

A julgar pela primeira semana, A Força do Querer está se mostrando bem agradável de se assistir. Sua essência é bastante folhetinesca, ou seja, sem medo de ser novela e sem pretensões dignas de séries. Glória Perez mostra que está disposta a apagar a má impressão deixada por Salve Jorge (2012-2013). Fica o desejo de que o bom nível apresentado até agora se mantenha.




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