Novidades tecnológicas, polêmicas e plantões: saiba como é a cobertura das eleições na TV dos EUA


Nesta terça-feira (8), o destino dos Estados Unidos e de todo o mundo será decidido, com a conclusão da disputa entre Hillary Clinton (Partido Democrata) e Donald Trump (Partido Republicano). A seguir, saiba como funciona a cobertura das eleições na TV norte-americana.



Debates

No ano de 1960, tivemos a primeira grande mostra do poder da televisão nas eleições. Na ocasião, o vice-presidente Richard Nixon (Republicano) enfrentava o senador John Kennedy (Democrata), até então desconhecido do grande público. Ambos se enfrentaram no primeiro debate da história da TV (até então, os encontros eram promovidos por emissoras de rádio e jornais).

Se recuperando de uma internação, Nixon teve um desempenho inferior ao do então desconhecido, mas carismático Kennedy, que se elegeu Presidente. Embora o evento não tenha contado com medição oficial de audiência, a estimativa é de que cerca de 74 milhões de norte-americanos tenham acompanhado o confronto.



Então, pelos próximos 16 anos, não foram realizados debates televisivos. Isso se deu devido a recusas de candidatos dos dois partidos, que não quiseram enfrentar o risco de tamanha exposição. Então, em 1976, Gerald Ford (Republicano) e Jimmy Carter (Democrata) retomaram o costume. Naquele ano, também foi realizado o primeiro confronto televisivo de candidatos a vice-presidente, entre Bob Dole (Republicano) e Walter Mondale (Democrata).

Em 1980, mais um exemplo de como a TV foi importante no processo. Naquele ano, o então presidente Carter enfrentava Ronald Reagan (Republicano). Vindo de uma carreira como ator em Hollywood, Reagan já havia sido Governador da Califórnia entre 1967 e 1975, mas ainda era visto com desconfiança por parte do eleitorado e ridicularizado por setores da mídia. Perante uma audiência de mais de 80 milhões de espectadores, o conservador ganhou o debate com larga vantagem e, logo depois, foi eleito Presidente.

Quatro anos mais tarde, em 1984, Reagan, então com 73 anos, era acusado de ser velho demais para ser reeleito. Então, quando confrontado com tal questão pelo oponente Mondale no debate, deu uma das respostas mais marcantes da história dos confrontos, afirmando ironicamente que "não iria explorar, por motivos políticos, a juventudade e a inexperiência de seu rival" (Mondale já havia sido vice-presidente e tinha 56 anos). Assim, o Presidente conseguiu minar tais acusações e foi reeleito.



O próximo grande destaque veio em 1992, quando um terceiro oponente foi adicionado ao debate: Ross Perot (Independente), que chegou a liderar as intenções de voto seis meses das eleições. Assim, o confronto foi entre Perot, o então Presidente George Bush (Republicano) e o futuro Presidente Bill Clinton (Democrata).

Em 2012, quando Barack Obama (Democrata) buscava sua reeleição, seus embates com Mitt Romney (Republicano) foram bastante assistidos, ficando com uma média de 65 milhões de espectadores.

Mas nada se compara aos debates da atual campanha. De um lado, a senadora Hillary Clinton (Democrata), esposa do ex-Presidente Bill Clinton. De outro, o empresário Donald Trump (Republicano), famoso por seus empreendimentos imobiliários e também por apresentar o reality O Aprendiz. Na temporada, foram realizados três debates, com o primeiro encontro obtendo o maior número de espectadores da história: 84 milhões de pessoas. Nos dois confrontos seguintes, a média também superou eventos passados, tendo respectivamente 66 milhões e 72 milhões de pessoas ligadas (tais números não contam transmissões via streaming, que também superaram dezenas de milhões).



Além disso, as emissoras fechadas também transmitem os debates das eleições primárias, processo pelo qual cada partido realiza prévias para escolher o candidato a Presidente. Assim, os espectadores podem acompanhar confrontos entre nomes pertencentes à mesma legenda, antes da campanha oficial começar. A adição de tais novidades, décadas atrás, fez com que a jornada eleitoral, que costumava durar poucos meses, passasse a se alongar por mais de um ano, desde os primeiros anúncios de candidaturas à escolha final.

Ao contrário do Brasil, onde cada emissora realiza seus próprios debates, nos Estados Unidos os eventos são transmitidos em conjunto. Desde os anos 80, os confrontos são organizados pela Commission on Presidential Debates, órgão sem fins lucrativos formado por membros dos dois partidos. Seguindo a tradição que começou em 1960, os eventos são transmitidos por todas as principais emissoras abertas e fechadas, como ABC, CBS, NBC, FOX, PBS, FOX News e CNN, entre outras.

Por aqui, algo similar foi realizado nos debates do segundo turno de 1989, entre Collor e Lula. Os dois encontros foram organizados e transmitidos por um poll de emissoras: Globo, SBT, Band e Manchete. O público estimado de cada um dos eventos foi de 100 milhões de espectadores, número impressionante mesmo para a época. Mas, desde então, a ideia foi abandonada e cada canal passou a organizar seu próprio debate, com exclusividade.

O dia da eleição

Seguindo uma tradição iniciada nos anos 50, as emissoras norte-americanas se dedicam a cobrir a apuração dos votos, mostrando a progressão dos candidatos na busca por delegados (no sistema usado nos EUA, o candidato vencedor no voto popular em cada estado carrega consigo o total de representantes daquela região no Colégio Eleitoral, buscando o número conclusivo de 270 delegados).

Um dos elementos mais tradicionais da cobertura foi implantado em 1976: o mapa eleitoral. Atendendo o pedido de John Chancellor, âncora do jornalístico NBC Nightly News, os engenheiros da emissora construíram um grande mapa dos Estados Unidos, em que cada estado poderia ser aceso de forma independente e em duas cores. Então, a cada resultado estadual divulgado, a região era acesa de acordo com o partido vencedor (sendo em cor vermelha para os Democratas e azul para os Republicanos).



A novidade fez tanto sucesso que, em 1980, todas as emissoras construíram cenários semelhantes. A partir da eleição entre George W. Bush (Republicano) e Al Gore (Democrata), no ano 2000, o esquema de cores foi invertido, com os "red states" sendo os de maioria Republicana e os "blue states" aqueles com mais votos para os Democratas. Desde então, o padrão se mantém o mesmo.

Uma diferença em relação ao Brasil é o fato de que os resultados podem ir sendo anunciados antes mesmo do horário de votação ser encerrado, uma vez que diversos estados norte-americanos contam com votações antecipadas.



Em 2016, além da Presidência, também serão disputadas eleições em todos os estados para a Câmara e o Senado, campanhas que recebem destaque e atualizações nas grandes redes. Além disso, alguns estados escolherão seus novos governadores, além de conselhos escolares e membros do judiciário local. Sendo assim, estes últimos quesitos só recebem atenção em afiliadas locais.

Para este ano, a promessa é de altos índices de audiência em toda a cobertura, mesmo com o voto não sendo obrigatório no país. Isso se deve ao caráter polarizado das eleições atuais, onde Hillary e Trump chamam a atenção de todos os setores da sociedade. O recorde em termos de audiência na noite da eleição é o da primeira vitória de Obama, em 2008. Naquele ano, 71 milhões de espectadores acompanharam o anúncio da vitória, somando todas as redes abertas (o número caiu para 66 milhões em 2012).



A noite das eleições costuma ser comparada com o Super Bowl em relação aos canais de notícia, uma vez que esta é uma rara oportunidade na qual a grande maioria dos telespectadores está ligada por várias horas nestes.

O resultado costuma ser anunciado no final da noite ou início da madrugada local, culminando com o discurso de vitória do candidato que obteve mais votos.

A NBC conta com a tradição de ser a líder da audiência na cobertura, trazendo a presença do jornalista Tom Brokaw, que cobre todas as eleições desde 1968. Além de Brokaw, a emissora terá mais nomes, como Lester Holt, Savannah Guthrie e Chuck Todd.

A transmissão da ABC tem como aposta o retorno de Charles Gibson, famoso pelo Good Morning America e que havia se aposentado em 2009. Ao lado dele, figuras tradicionais como Diane Sawyer. A CBS buscará se diferenciar com sua transmissão sendo comandada por sete âncoras, incluindo Charlie Rose e Scott Pelley.

Já a FOX cobrirá as novidades em parceria com o canal pago FOX News, líder em audiência entre as emissoras de notícias da TV paga. Com nomes como Megyn Kelly e Shepard Smith, os dois canais pretendem manter um alto índice de espectadores.



A MSNBC, emissora pertencente à NBC, vice-líder no segmento de notícias, fará plantão com a dupla Rachel Maddow e Chris Matthews. Enquanto isso, a CNN, que busca retomar os índices do passado, estando atualmente na terceira posição em audiência, trará nomes como Wolf Blitzer e Anderson Cooper.

Visando se destacar, as redes costumam trazer surpresas tecnológicas, que fazem suas estreias na noite das eleições. Embora nada ainda tenha sido anunciado para este ano, podemos citar o grande diferencial da CNN em 2008: naquela noite, o apresentador Wolf Blitzer interagiu ao vivo com a repórter Jessica Yellin no estúdio em Nova York, como se a jornalista estivesse ao seu lado. Porém, Jessica se encontrava a mais de 1000 quilômetros de distância, na cidade de Chicago.



Isto se deu com uma simulação de holografia. Através de um sistema que utilizava 35 câmeras, a profissional foi capturada em diversos ângulos. Então, as imagens eram processadas e recriadas, sendo aplicadas ao lado de Blitzer (que, ao contrário do que a transmissão sugeria, não via a jornalista na sua frente, mas sim apenas em um monitor comum).

Assim, a audiência da CNN dobrou em relação a 2004, fazendo com que o recurso se tornasse um dos grandes assuntos daquela noite.

Em uma eleição tão movimentada como a de 2016, podemos esperar várias novidades.

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